Impacto das Infecções Respiratórias na Audição

Mesmo que você leitor não seja médico, acredito que esteja se pegando por aí discutindo sobre doenças nestes tempos de pandemia. Este hábito pode não ser muito comum para você e eu, sinceramente, espero que tudo passe logo e doenças voltem a ser um assunto pouco comum na sua vida!

Por outro lado, discutir doenças é obviamente uma parte importante do dia-a-dia do trabalho de um médico. Se você que me lê é médico, vai concordar que às vezes é muito difícil explicar para um paciente como a doença dele surgiu. Por vezes, nem a própria Medicina produziu conhecimento suficiente para que compreendamos completamente o processo de surgimento de algumas patologias (o Coronavírus está aí escancarando isso).

Ainda bem que a perda auditiva após uma infecção respiratória não está nesse grupo. É um processo simples de se compreender e às vezes o próprio paciente nos informa através de seu raciocínio um diagnóstico correto. 

Grande parte das pessoas já percebeu uma perda auditiva, durante um período em que o nariz está obstruído por uma infecção respiratória. Pois bem, o raciocínio surge a partir daí mesmo. No nariz obstruído, também está bloqueado o canal de drenagem de muco dos ouvidos. O nome deste canal é tuba auditiva. Esta obstrução impede que o muco escorra dos ouvidos em direção ao nariz, ficando acumulado em nosso órgão da audição.

Adaptado de: Anatomia da orelha (anteriormente chamado de Ouvido). Ilustração: SVETLANA VERBINSKAYA / Shutterstock.com

Outros dois processos acontecem nas infecções respiratórias. A secreção com bactérias e/ou vírus pode ascender para o ouvido (também através da tuba auditiva). Os fatores inflamatórios presentes no nariz também vão para dentro do ouvido através da tuba. Pronto! Forma-se um ambiente obstruído, repleto de muco, fatores inflamatórios, vírus e/ou bactérias. Propício para o início de um processo infeccioso que conhecemos como Otite Média Aguda.

A grande tranquilidade é que este tipo de otite quando tratada adequadamente, se resolve completamente em cerca de duas semanas. Assim, a infecção respiratória que gera uma Otite Média Aguda costuma causar um prejuízo auditivo leve e que se resolve sem deixar sequelas. Por isso, pessoas de todas as idades devem procurar atendimento médico para que esta patologia seja tratada.

Adaptado de: Rosenfeld RM. A Parent’s Guide to Ear Tubes. Hamilton, Canada: BC Decker Inc; 2005.

As coisas se complicam para a audição em dois contextos. Primeiro, quando o paciente já possui outra fonte de perda auditiva. A sua perda pode se intensificar a ponto de prejudicar bastante sua qualidade de vida. Se você já tem deficiência auditiva, não demore para procurar atendimento durante aquele “resfriado” que piora sua audição! 

Outro caso é quando as infecções respiratórias – e por consequência as otites – são crônicas ou recorrentes. Neste contexto, a perda auditiva em geral é mais grave e tem grandes chances de deixar sequelas. Quando o paciente tem mais de 4 Otites Médias Agudas em um ano, ele tem Otite Média Aguda Recorrente. Quando a secreção permanece no ouvido por mais de três meses, ela se chama Otite Média Crônica Serosa. 

As crianças são os mais acometidos pelas otites crônicas e recorrentes. A tuba auditiva – ela de novo – dos pequenos funciona pior: é mais curta, mais flácida e mais horizontalizada. Além disso, as crianças ainda não produziram todos os seus anticorpos. Estudos estimam que 15% das crianças brasileiras têm otites agudas recorrentes. 90% das crianças menores de 6 anos terão em algum momento da vida, secreção retida em seus ouvidos por mais de 3 meses, causando perda auditiva. Estas otites são a maior causa de perda auditiva em crianças em países desenvolvidos! Todos estes pacientes precisam de tratamento medicamentoso, 42% deles precisarão de cirurgia para recuperar a audição. 

Como o pico do prejuízo auditivo se dá entre 2 e 4 anos, as crianças não costumam nos informar muito bem o que estão sentindo. É de suma importância que a família preste atenção nos seus sinais: falta de concentração, mau-desempenho escolar, pedir para repetir as frases, falar muito alto, escutar a televisão muito alto, por exemplo. Alguns fatores são comprovadamente protetores como a vacinação em dia, suspensão do uso de chupetas após os 15 meses, aleitamento materno exclusivo até 6 meses de vida e não expor a criança ao cigarro.

Nos adultos, o padrão de prejuízo auditivo gerado pelas infecções respiratórias se comporta de outra maneira. Os adultos jovens devem procurar atendimento e tratamento eficaz para suas doenças nasais que estão gerando perda auditiva. Sejam elas crônicas ou recorrentes. Já os idosos, devem também buscar atendimento e terem o nariz minuciosamente examinado. Pois no caso deles, não é esperado infecções respiratórias com tanta frequência e aumenta a chance de se encontrar alguma patologia nasal maligna causando a perda auditiva. Todos os adultos precisam de tratamento e em relação às cirurgias, este número é maior, chegando a 60% o número de casos necessários para restaurar a audição.

Fontes:

Kurc M, Amatuzzi MG. Fisiologia da Audição. Tratado de otorrinolaringologia / organização Shirley Shizue Nagata Pignatari , Wilma Terezinha Anselmo-Lima.- 3. ed. – Rio de Janeiro : Elsevier, 2018.

Rosenfeld RM, Shin JJ, Schwartz SR, et al. Clinical Practice Guideline: Otitis Media with Effusion (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2016;154(1 Suppl):S1-S41. doi:10.1177/0194599815623467

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