Triagem Auditiva Neonatal em tempos de pandemia: sugestões e reflexões

A Triagem Auditiva Neonatal Universal (TANU) é Lei desde 2010 (nº 12.303).

Toda maternidade precisa oferecer o serviço de triagem auditiva, ou no mínimo, encaminhar para outro serviço em que ela seja realizada. Assim como o encaminhamento para serviços de diagnóstico quando necessário.

Na realidade do nosso país sabemos que nem sempre é possível ter esse serviço em todos os estados e cidades brasileiras. Nem sempre existe orçamento o suficiente para que os programas sejam implementados, por diversos motivos.

Porém, o fato é que se faz necessário triar e diagnosticar a surdez de maneira precoce, pois dessa forma é possível realizar a reabilitação também de maneira precoce, com o uso de dispositivos auditivos como aparelhos de amplificação sonora individual (AASI) e/ou implante coclear (IC).

O processo de diagnóstico para indicar o IC pode ser algumas vezes demorado, e para não perder tempo de desenvolvimento, o quanto antes puder ser feito, melhor.

Mas para que a família chegue até os serviços de saúde auditiva focados na reabilitação, é necessário a triagem e a orientação adequada logo ao nascimento.

Isto tem melhorado ao longo do tempo com a divulgação de informações de diferentes profissionais da área, através de artigos científicos e até mesmo pelas redes sociais, que tem o poder de atingir ainda mais pessoas.

Mas, em 2020 algo aconteceu para atrapalhar todos os nossos planos, inclusive o andamento das triagens auditivas. Algo que nem imaginávamos viver: uma pandemia!

A princípio foi necessário entrar em quarentena e com isso muitos serviços de TANU pararam, a fim de preservar os profissionais e os pacientes da doença, até então, desconhecida.

Com isso outro problema foi criado: a triagem auditiva, e consequentemente o diagnóstico da surdez, foi adiado.

E por quê isso é um problema tão grande? Afinal, depois que tudo passar a gente volta a fazer.

Bom, em primeiro lugar é a demanda, que com certeza aumentou, pois vários bebês que nasceram nesse período ficaram em listas de espera para a realização do exame, pelo fato de realmente existir um número grande de crianças nascendo nas maternidades, e também, aqui enfrentamos outra triste realidade, não há profissionais suficientes em todos os serviços para realizar o exame. E assim, o que teoricamente atrasaria 3 meses, pode virar uma espera de 6 meses ou mais!

Considerando todo esse tempo de espera devemos nos atentar a outro fator muito discutido na área da saúde: o desenvolvimento.

O cérebro da criança tem seu período de maior plasticidade neuronal, ou seja, de maior aprendizagem, até os 2 anos de idade. Após essa idade é possível ainda aprender muitas coisas, mas algumas se tornarão mais difíceis, como o desenvolvimento auditivo e de linguagem. 

É necessário fornecer inputs auditivos e estimulação de linguagem desde o nascimento do bebê para que o cérebro dele cresça entendendo que essas informações são importantes, e com isso, aprenda como utilizar as informações fornecidas sozinho para se comunicar e ter contato com o mundo externo.

Se deixarmos para fornecer as informações auditivas e de linguagem após os 2 anos, muita coisa pode ser perdida e afetar todo o desenvolvimento da criança, inclusive repercutindo no seu sucesso escolar, e como consequência no sucesso profissional na sua vida adulta também. 

Vejam que tudo está conectado, o que começa lá no início da vida como uma simples triagem auditiva no tempo certo, pode interferir em como esse indivíduo viverá sua vida e quais oportunidades pode vir a ter.

 Depois de tudo isso fica claro o quanto é necessário investir na TANU.

Durante uma pandemia medidas extremas precisam ser tomadas, como realmente o isolamento social e demais cuidados orientados pelos órgãos responsáveis. Porém, não podemos esquecer do nosso principal aliado: a internet!

Não estou aqui dizendo que a triagem deve ser feita pela internet, isso não é possível, muito menos indicado pelo Conselho de Fonoaudiologia.

Mas acredito que podemos fornecer algum tipo de orientação e conforto às famílias por meio de plataformas online. Ao invés de simplesmente anotar todos os nomes e chama-los quando tudo estiver bem, o que não sabemos quando será, que tal pensar em outra solução? Uma ligação por vídeo para olhar nos olhos dos pais e conhecer a família, ou caso não seja possível utilizar a internet, fazer uso do bom e velho telefone para perguntar sobre o desenvolvimento do bebê e passar orientações quanto ao desenvolvimento auditivo e de linguagem, indicar os principais sinais de perda auditiva, se colocar à disposição para tirar dúvidas.

Sei que parece simplista, mas a orientação e apoio aos nossos pacientes é parte importantíssima do nosso trabalho enquanto profissionais da saúde. Nós podemos, e devemos, fornecer muito mais do que um laudo pronto que o equipamento automático fornece.

Não despreze o conhecimento e informação que você pode fornecer a alguém, isso pude mudar o rumo e direcionamento de toda uma vida!

Ao verificar que uma criança só poderá fazer triagem aos 8 meses de idade, talvez seja mais indicado orientar à família que procure direto o serviço de diagnóstico para fazer toda a bateria de exames e com isso já ficar tranquilo em relação a audição normal, ou também ficar tranquilo caso ela tenha uma surdez profunda, pois ainda está em tempo de fazer uso de próteses auditivas sem perder o período precioso de desenvolvimento auditivo e de linguagem.

Nesse meio tempo, quem sabe já orientar os pais a procurarem por informações quanto a terapia de fono, estimulação em casa e outros pontos essenciais no sucesso com as próteses auditivas?

Enquanto profissional de um serviço de saúde auditiva e implante coclear, digo que receber para o diagnóstico uma família bem orientada fará toda a diferença no processo de reabilitação, e isso muda vidas.

Espero que possamos logo voltar ao que conhecemos de vida normal e com isso a triagem auditiva realizada da forma padrão ouro já identificada e indicada pelo nosso conselho de ética.

Porém, acredito que pensar em opções de emergência colabora muito para a valorização profissional do fonoaudiólogo e para que a população geral entenda que nós temos muito mais a oferecer do que apenas apertar botões e assinar um laudo emitido por uma máquina. Infelizmente algumas pessoas nos enxergam assim, eu mesma já ouvi essa frase.

E espero que com esse texto e essas reflexões nenhum outro profissional aceite ouvir esse tipo de comentário. Mas, para isso, precisamos nos unir e mostrar que a nossa profissão pode oferecer mudança de vidas pelo simples fato de estar presente na vida dos nossos pacientes fornecendo todo o conhecimento que pudermos.

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