DISFUNÇÃO VESTIBULAR NA INFÂNCIA

O que é disfunção vestibular? 

É alguma alteração no complexo sistema do equilíbrio, que pode acontecer a nível periférico ou central. O indivíduo com alteração vestibular pode ter tontura, vertigem, náusea, vômito, sudorese, parestesia de membros, desequilíbrio, sensação de cabeça leve e de estar flutuando.

Crianças podem nascer com disfunção vestibular? Primeiro quero deixar claro que quando falamos em disfunção vestibular, nem sempre falamos de tontura ou vertigem, e sim, crianças já podem nascer com alteração nesse sistema. O que as pesquisas mostram é que a disfunção vestibular está associada a perda auditiva sensorioneural profunda uni ou bilateral. Se uni, do mesmo lado da perda auditiva. Por quê? Pela proximidade dos dois órgãos, da audição (cóclea) e do equilíbrio (labirinto).

A grande maioria dessas crianças, nunca serão vertiginosas. Por quê? Primeiro porque é mais comum uma perda auditiva sensorioneural bilateral. Elas irão apresentar outros sintomas.

Quais as causas da disfunção vestibular no neonato? 

A perda cócleo-vestibular já é há algum tempo aceita como morbidade da PASN (perda auditiva sensorioneural). As mais comuns são: 

  • Síndromes, como USHER, onde as crianças apresentam, PASN, comprometimento vestibular e comprometimento visual progressivo. E um dos critérios diagnósticos da síndrome, é o comprometimento vestibular;
  •  Anomalias cócleo-vestibulares, que podem estar presentes em algumas síndromes, como Waadenburg, que é aquela síndrome que se caracteriza por mudança na coloração dos olhos, cabelo e pele. Nesse caso, este indivíduo pode, em alguma fase da vida, apresentar vertigem por ser uma anomalia de caráter progressivo; 
  • Perdas auditivas adquiridas, por infecções como citomegalovírus, que pode afetar o sistema periférico e central. Normalmente os déficits sensoriais aparecem por volta do 3° trimestre de vida. Neste caso, estudos mostram que é mais comum a disfunção vestibular do que a PASN; 
  • Meningite; 
  • Ototoxicicidade, crianças submetidas a tratamento com ototóxicos são audiologicamente monitoradas, mas o monitoramento vestibular é raro.  
  • E também Otite média crônica, trauma, prematuridade.

Como avaliar essas crianças?

O mundo ideal seria realizar triagem vestibular em crianças com PASN. Inclusive, temos trabalho que mostram a viabilidade dessa triagem com cVEMP (VEMP Cervical). Mas a triagem, ainda, não é nossa realidade. É aí onde entra o papel, principalmente, dos responsáveis e do pediatra, seguido de profissionais como os neurologistas, otorrinolaringologistas e reabilitadores, como fonoaudiólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. 

Quais sinais devem ser observados? Primeiramente, atraso no desenvolvimento motor, porque o desenvolvimento motor depende da integridade do sistema vestibular.  Os responsáveis devem observar sinais como: sensação de desconforto, choro intenso principalmente no escuro, recusa e seletividade alimentar.

Nessa fase, é importante um trabalho interdisciplinar, essas crianças não são beneficiadas com reabilitação vestibular tradicional e sim com terapia de integração sensorial. 

Quais os profissionais habilitados para ajudar essas crianças? 

Pediatra, neurologista, otorrinolaringologista, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional.

Qual a importância do diagnóstico precoce? É a intervenção precoce.

Essas crianças são subjugadas a condição de “mania”, “birra”, “chata para comer”.

Quais os prejuízos para essas crianças? Atraso no desenvolvimento motor, de linguagem, prejuízos cognitivos. A visão e o sistema somatossensorial para o equilíbrio, não são desenvolvidos em crianças com disfunção vestibular bilateral, mesmo tendo esses sistemas intactos.

Quais exames quantitativos temos para essa população?

São muitas as dificuldades de diagnosticar essa população. O primeiro critério de investigação deve ser a associação à perda auditiva. Segundo critério, avaliação comportamental, como o atraso no desenvolvimento motor, das questões de orientação espacial, irritabilidade e recusa alimentar. 

  • 0 a 2 anos: cadeira rotatória, cVEMP;  
  • 3 a 7 anos, vHIT cVEMP e oVEMP;
  • a partir de 8 vHIT e prova calórica de vHIT normal cVEMP oVEMP (VEMP Ocular) 

Crianças maiores, em idade escolar. 

Irei começar falando desse grupo com o depoimento que uma pessoa que teve vertigem na infância:

“eu acho que gosto tanto de otoneurologia porque eu descobri que sofri a vida toda! Desde criança eu vivia vomitando toda hora e morria de dor de cabeça! Carro, barco, avião, brinquedo que gira, andar em serra, Nossa Senhora! Era o fim, vômito sem dúvidas. Quando fiz a especialização, fizeram avaliação em mim e descobriram que eu tinha MIGRANEA VESTIBULAR… os médicos que minha me levou disseram que minha vista estava ruim, por isso eu tinha esses sintomas. Eu tenho meio grau em um olho e 0,7 no outro, nem óculos preciso usar. E eu fiquei tão feliz de porque eu vivia passando mal. Aaaaaah e mais uma coisa, bebida alcóolica é do mal para mim. Então, na infância oftalmologista, pediatra, até otorrino nunca desconfiaram de nada disso. Hoje em dia controlo super bem com exercícios físicos. Não chego a tomar medicamento… mas se eu paro de me movimentar, menina do céu, ´mal estar e dor de cabeça quase todo dia.” 

50% desses casos que começam na infância, continuam na fase adulta. E, é considerada a causa mais comum de vertigem na infância. 

Na fase escolar, temos uma incidência de 15% de distúrbios do equilíbrio em criança. Mas acredita-se que esse número seja subestimado devido ao subdiagnóstico. 

Quais as causas mais comuns de vertigem nessa fase? 

  1. MIGRANEA, 20% das crianças que tem enxaqueca referem vertigem.
  2. VPBI, são ataques súbitos de vertigem, acompanhada ou não de náusea e vomito. Não se observa fator desencadeante. Começa por volta dos 3 a 8 anos. Nesses casos a criança mantém a consciência, é o que difere da epilepsia.
  3. Trauma, dor de cabeça, comprometimento cognitivo, tontura e vertigem, sono perturbado.
  4. Neurite- mesmos sintomas do adulto.
  5. Otite média, evolui para labirintite

Quais os sinais e sintomas?

Isolamento social, fobias, dificuldades escolares (acompanhar o professor no quadro e fazer cópias do quadro, fazer leitura, ou seja, fluência na leitura prejudicada e isso pode levar a diagnóstico errado de dislexia ou discalculia. Mas na realidade há uma descoordenação do sistema oculomotor, alteração no reflexo vestíbulo-ocular)). Essas crianças evitam movimentos que provoquem o mal estar como, andar de bicicleta, brincar em parques, participar de jogos infantis e esportes. 

Quais os prejuízos na vida dessa criança?

Prejuízo cognitivo, escolar e social.

Quais os tratamentos?

Medicamentoso e Reabilitação Vestibular. Um estudo fez um controle quantitativo do resultado da reabilitação vestibular antes e depois. Observou-se a melhora significativa com 4 sessões de RV em crianças. O protocolo da RV em crianças, na verdade, em adultos também, varia de acordo com a natureza da lesão (se periférica uni ou bilateral, central); idade; tempo da lesão e fatores do desenvolvimento, como períodos críticos.

Existe algum protocolo de avaliação?

Não, cada serviço pode elaborar seu próprio protocolo, baseado em evidências científicas e disponibilidade de instrumentos

CONCLUSÃO

Os prejuízos de disfunção vestibular em crianças são muito piores do que em adultos. Os adultos percebem a melhora, pois estão recuperando uma função que já tinham. As crianças têm grandes prejuízos por atraso em todo seu desenvolvimento. Temos um papel de divulgar mais essas informações e estudar mais sobre o assunto porque as crianças também sentem tontura sim e precisam de ajuda.

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