Processamento Auditivo Central: A importância do cérebro para a audição

As orelhas escutam, mas quem OUVE é o cérebro!

As orelhas são responsáveis por captar os sons e transformá-los em estímulos elétricos. Esses estímulos que saem dos nervos auditivos passam pelas chamadas vias auditivas centrais. Todos os cérebros “saudáveis” tem essas vias auditivas íntegras e funcionantes e que são capazes de levar as informações até o córtex auditivo para serem entendidas. 

Quando estamos pesquisando sobre o assunto e observamos a anatomia, o caminho entre orelha e cérebro parece longo, mas o som – sem que a gente perceba – percorre toda a via auditiva em poucos milissegundos.

A ilustração mostra as vias auditivas, desde a orelha externa até o córtex auditivo:

Desde o nervo auditivo os sons, então transformados em estímulos elétricos, ativam nossos neurônios e passam por um fenômeno chamado de PROCESSAMENTO AUDITIVO “CENTRAL” – PAC. Para Katz (1999) o Processamento Auditivo Central é aquilo que fazemos com o que ouvimos. A American Speech-Language-Hearing Association –  ASHA (2005) definiu como sendo a eficiência e eficácia do Sistema Nervoso Central em utilizar a informação auditiva. Em 2010, a Associação Americana reafirmou o PAC como a eficiência e a eficácia pela qual o sistema nervoso central utiliza a informação auditiva, referindo-se ao processamento perceptual da informação auditiva no sistema nervoso central e a atividade neurobiológica subjacente ao processamento.

De acordo com o Guia de Orientações: Avaliação e Intervenção do PAC, lançado pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia neste ano (2020), o som, após ser detectado pela orelha interna, sofre inúmeros processos fisiológicos e cognitivos para que seja decodificado e compreendido. Estes mecanismos e processos do sistema auditivo nervoso central incluem habilidades como lateralização e localização espacial do som, compreensão da fala no ruído, compreensão de uma mensagem, mesmo quando ela está distorcida e fragmentada; capacidade para eleger estímulos apresentados a uma orelha, ignorando informações apresentadas à orelha oposta e/ou reconhecer estímulos diferentes apresentados simultaneamente a ambas as orelhas; capacidade de discriminar e identificar pequenas mudanças nos estímulos como diferenças de frequência, intensidade, ou duração e capacidade de detectar e perceber modulações e intervalos mínimos em uma sequência de sons. 

Assim, para que o Processamento Auditivo aconteça de forma efetiva, várias habilidades auditivas estão envolvidas, confira cada uma delas: 

  • Localização e lateralização sonora: habilidade para identificar a fonte sonora e reconhecer a sua procedência no espaço. 
  • Discriminação auditiva: habilidade para distinguir um som de outro. 
  • Reconhecimento de padrão auditivo: habilidade para determinar semelhanças e diferenças entre padrões acústicos. 
  • Aspectos temporais da audição: habilidade para processar estímulos acústicos em função do tempo.
  • Figura-fundo: a habilidade de reconhecer a fala ou outros sons quando sinais competitivos estão presentes, podendo ser fala ou ruído com espectro de fala. 
  • Fechamento auditivo: habilidade de reconhecer a fala ou outros sons quando parte desta informação está faltando, como quando parte do espectro do sinal está mascarada em sua amplitude (por exemplo pela introdução de ruído branco), comprimida no tempo ou ainda com extração de frequências baixas ou altas.  
  • Aspectos binaurais da audição: habilidades para processar estímulos acústicos apresentados simultaneamente nas duas orelhas.

Mas será que, ao ouvirmos, nós utilizamos todas essas habilidades auditivas? A resposta é SIM e o tempo todo! 

Por exemplo, quando estamos em uma festa e precisamos prestar a atenção em uma conversa e esquecer os outros sons, como música ou o garçom, estamos realizando Figura-Fundo. O mesmo se aplica para as crianças na escola, numa sala de aula, enquanto a professora explica a matéria, e alguns outros alunos conversam ao redor, nesta situação temos a figura-fundo e o fechamento auditivo em ação. Imagine, também, quando estamos ao telefone ouvindo com uma orelha e pessoalmente alguém nos dá um comando que ouvimos com a outra orelha, provavelmente acionamos, além da habilidade de Discriminação Auditiva, os Aspectos Binaurais da audição. 

Rotineiramente nós não percebemos o quanto as vias auditivas e o córtex auditivo são importantes para uma boa audição. Culturalmente estamos acostumados a vincular audição somente com as orelhas, mas é por meio das vias auditivas centrais que nos tornamos capazes de compreender e dar sentido aos sons. Além disso, cada estrutura neural responsável pela audição mantém o sistema funcionando e nos ajuda a desenvolver aspectos relacionados a fala e linguagem.

Vale ressaltar que o processamento auditivo não deixa de se relacionar com os processos superiores de aprendizagem, linguagem, atenção, cognição e memória, porém estas NÃO são habilidades auditivas, ainda que sejam partes tão essenciais para comunicação e qualidade de vida quanto a audição.

Os surdos que ouvem e que iniciam o uso do Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AAS0 ou aparelho auditivo) ou o uso do Implante Coclear (IC) devem ter suas habilidades auditivas estimuladas de forma adequada para maior e melhor aproveitamento do sentido da audição. 

Em casos de suspeita de alteração ou dificuldade nestas habilidades, podemos ter o diagnóstico de TPAC – Transtorno do Processamento Auditivo Central. Ele pode ser diagnosticado por meio de uma bateria de testes padronizados, realizado por fonoaudiólogos, em cabine acústica. A participação de equipe multidisciplinar é indispensável para o diagnóstico diferencial do TPAC, pois exige também o estudo e observação de outros processos e mecanismos, dentre eles cognitivos e linguísticos, para que sejam identificadas possíveis comorbidades, transtornos mais globais ou de alta ordem (CFFa, 2020).

Em 2014, os autores Bellis e Jorgensen estimaram que 2% a 5% das crianças em idade escolar, com queixas relacionadas ao desenvolvimento e ao aprendizado, apresentem realmente o TPAC como déficit primário. Em adultos, a prevalência aumenta conforme a faixa etária para 17% entre 50-54 anos podendo ser maior que 70% após os 60 anos 

Mas atenção, o teste tem idade mínima para ser realizado, sugere-se acima dos sete anos de idade e envolve alguns pré-requisitos (como habilidades cognitivas e linguísticas, ausência de alteração na orelha média, como infecções no momento dos testes e níveis de atenção de acordo com a tarefa). Pessoas com perdas auditivas podem realizar os testes, mas vai depender do grau e tipo da perda auditiva. Converse com um médico ou fonoaudiólogo.

A boa notícia é que para o Transtorno do Processamento Auditivo há terapia que visa “normalizar” essas habilidades. O Treinamento Auditivo é uma terapia específica que costuma ser rápida e bastante eficaz para casos específico de Transtorno do PAC. 

Informe-se, conheça suas habilidades auditivas e cuide do seu cérebro! Afinal eles são essenciais para sua audição. 

Fontes:

– ASHA – American Speech-Language-Hearing Association – (Central) Auditory Processing Disorders:The role of the Audiologist. Rockville, MD: American Speech-Language-Hearing Association. Working group on Auditory Processing Dirsorders. Technical Report. 2005/2010.

– BELLIS, T. J.; JORGENSEN, L. E. Aging of the auditory system and differential diagnosis of central auditory processing disorder in older listeners. In: MUSIEK, F. E. e CHERMAK, G. D. (Eds.) Handbook of central auditory processing disorder: auditory neuroscience and diagnosis. 2ª. San Diego: Plural Publishing, v.1, 2014.

– CFFa. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Guia de Orientação: Avaliação e Intervenção do Processamento Auditivo Central. Agosto, 2020

– KATZ, J. Tratado de Audiologia Clínica. ed. 04. São Paulo:Manole, 1999. 

– PEREIRA, L.D.; Schochat, E. Processamento auditivo central: manual de avaliação. São Paulo: Lovise; 1997 

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