Transtorno do Processamento Auditivo Central – TPAC

O que é? Tem tratamento?

Você sabia que existe diferença entre deficiência auditiva e transtorno do processamento auditivo central?

Quando há alguma falha no sistema auditivo periférico, ou seja, qualquer problema no ouvido externo, médio ou interno, que faça com que o estímulo sonoro não complete todo o percurso para chegar ao cérebro, tem-se uma deficiência auditiva.

A deficiência auditiva pode ser classificada de acordo com o grau e tipo de perda de audição, porém, se o estímulo sonoro chega intacto ao cérebro, mas o córtex não consegue interpretar essas informações, tem-se um Transtorno do Processamento Auditivo Central – TPAC.

As principais causas para o TPAC são fatores genéticos, distúrbios neurológicos (como meningite, traumas cranioencefálicos e lesões do Sistema Nervoso Central), Otite Média recorrente e outras privações auditivas, além de fatores pré-natais como anóxia, citomegalovírus e prematuridade.

No Brasil ainda não temos estudos que comprovem a prevalência ou incidência do TPAC. Bamiou et al em 2011, estimaram que a prevalência de TPAC em crianças foi de 2 a 7% nas populações dos EUA e do Reino Unido. Já a ASHA (2005) afirmou que quase 20% da população, entre crianças, jovens e adultos, têm esse transtorno. Contudo, credita-se que de 2 a 5% das crianças em idade escolar possuem o TPAC “puro” – sem outras comorbidades, subindo de 17% da população entre os 50 e 54 anos e podendo ser maior que 70% em indivíduos com mais de 60 anos de idade.

Ao avaliarmos o Processamento Auditivo Central, buscamos entender o funcionamento das habilidades auditivas, como localização sonora, discriminação auditiva, figura-fundo e fechamento auditivo, ordenação e resolução temporal. Para cada idade, existem testes padronizados e escores diferentes que vão denominá-las como normais ou alteradas.

Para saber mais sobre o Processamento Auditivo Central, leia o artigo abaixo:

Segundo a ASHA (2005) – American Speech-Language-Hearing Association, quando uma ou mais habilidades auditivas responsáveis pela interpretação da mensagem e, consequentemente, pela atribuição de significados estão alteradas, temos um Transtorno do Processamento Auditivo Central. Já a Academia Brasileira de Audiologia (2016) considerou a alteração em um único teste como transtorno.

Neste sentido, o TPAC se refere a qualquer deficiência observada em um ou mais comportamentos relacionados ao mecanismo do Processamento Auditivo. Em suma trata-se da dificuldade no processamento perceptual da informação auditiva no Sistema Nervoso Central e na atividade neurobiológica que embasa este processamento.

O nome Distúrbio do Processamento Auditivo – DPAC ou Alteração do Desenvolvimento das Habilidades Auditivas também podem ser usados para definir a alteração auditiva central (EIA, 2016; EIA 2017).

Suspeita-se de um Transtorno do Processamento Auditivo -TPAC quando o indivíduo apresenta dificuldades de audição sem causas aparentes. A principal característica é a dificuldade para ouvir na presença de ruído de fundo, mesmo apresentando um audiograma normal. Além disso, crianças com distúrbio do processamento auditivo, muitas vezes apresentam dificuldades de leitura, como a compreensão de textos; tem dificuldades com fonemas; com a escrita, apresenta erros ortográficos; dificuldades de linguagem expressiva e receptiva, com interferências psicossociais. Já adultos se queixam de sobrecarga auditiva levando a fadiga, cansaço constante e dores de cabeça, queda no rendimento do trabalho, problemas de relacionamento interpessoal (fala com prosódia pobre, dificuldade para entender piadas e ironias).

Foi possível perceber, neste momento atual de pandemia causada pela COVID19, que a obrigatoriedade do uso de máscaras, fez com que queixas como “ouço, mas não entendo” e “não consigo compreender sem olhar para os lábios das pessoas” aumentassem de forma considerável. O interessante é que muitas vezes ao avaliarmos esses sujeitos nos deparamos com audição periférica normal, mas com alteração nas habilidades do processamento auditivo. Provavelmente, em breve, teremos estudos científicos comprovando e contabilizando estes achados clínicos.

O profissional responsável pelo diagnóstico é o Fonoaudiólogo – Audiologista. Realizado por meio de testes comportamentais, em cabine acústica, com uso de fones, onde é necessário prestar atenção aos sons e executar as tarefas solicitadas (como repetir palavras, apontar figuras, imitar sons, entre outras). Requer colaboração por parte do avaliado e é recomendado a partir dos 7 anos de idade.

É necessário que o paciente possua habilidade cognitivas suficientes para a realização das tarefas, produção articulatória inteligível, e bom nível de atenção.  As sessões de avaliação costumam durar cerca de 45 minutos a 1 hora e, rotineiramente, duas sessões são suficientes para se chegar ao diagnóstico, porém isso pode variar de caso para caso.

Mas, o que fazer em caso de Diagnóstico de Transtorno do Processamento Auditivo?

Primeiramente vamos lembrar que o TPAC não é falta de audição ou perda auditiva, mas sim uma determinada dificuldade em processar e interpretar os estímulos auditivos que foram detectados pelos ouvidos e levados ao córtex auditivo. Desta forma, não há tratamentos medicamentosos que busquem a cura ou dispositivos eletrônicos para auxílio direto (como Aparelho de Amplificação Sonora ou Implante Coclear), mas há terapia específica chamada de Treinamento Auditivo.

O Treinamento Auditivo tem como objetivo principal proporcionar mudanças e reorganizações junto às conexões neuronais auditivas, por meio da plasticidade cerebral (ou seja, usando a capacidade de mudança do nosso cérebro frente a novos e adequados estímulos) fazendo com que o indivíduo consiga “normalizar” o uso das habilidades auditivas.

O Conselho Federal de Fonoaudiologia (2020) em seu Guia de Avaliação e Intervenção do PAC, citou que os estudos em neurociência cognitiva oferecem suporte à uma proposta de intervenção mais abrangente envolvendo os princípios bottom-up (estratégias desenhadas para melhorar a percepção dos sons como as intervenções acústicas ambientais, uso de sistemas auxiliares de escuta, treinamento auditivo direto e dirigido especificamente ao déficit, treinamento perceptual, treinamento musical) e top-down (estratégias linguísticas e cognitivas que participam e auxiliam na percepção do estímulo como: atenção, memória de trabalho, fechamento auditivo, vocabulário, treinamentos computadorizados). O planejamento da intervenção deve ser determinado a partir dos déficits documentados no diagnóstico de TPAC, da história do paciente, e complementado pelos dados das avaliações de linguagem, neuropsicológica e psicoeducacional (ASHA, 2005; AAA, 2010).

A terapia do treinamento auditivo pode ser feita em cabine acústicas ou em sala tratada – chamado treinamento formal, ou em sala comum – chamado treinamento informal, com ou sem uso de fones e de forma acusticamente controlada. Existem softwares específicos que podem servir de apoio e como complemento para tarefas na clínica e em casa.

Atualmente, sabe-se o treinamento das habilidades auditivas também pode ser feito em usuários de Aparelho de Amplificação Sonora Individual – AASI, assim como em usuários de Implante Coclear para otimizar a adaptação, mas nestas situações, cada caso deve ser avaliado de forma específica e individualizada.

Em caso de suspeita de Transtorno do Processamento Auditivo Central, ou se você conhece alguém com sintomas semelhantes, procure um médico e um fonoaudiólogo. Lembre-se que o diagnóstico é indolor e não invasivo e que o treinamento auditivo, quando bem realizado, pode trazer resultados rápidos e eficazes, melhorando significativamente a comunicação e qualidade de vida!

Referências

– AAA: American Academy of Audiology. Clinical Practice Guidelines: Diagnosis, Treatmentand Management of Childrenand Adultswith Central Auditory Processing Disorder. 2010.

– ABA: Academia Brasileira de Audiologia: Encontro Internacional de Audiologia, 31º. Fórum: Diagnóstico audiológico. Recomendações e valores de referência para o protocolo de avaliação do PAC: comportamental e eletrofisiológica. 2016, São Paulo. – ASHA – American Speech-Language-Hearing Association – (Central) Auditory Processing Disorders:The role of the Audiologist. Rockville, MD: American

– ASHA: American Speech-Language-Hearing Association – (Central) Auditory Processing Disorders:The role of the Audiologist. Rockville, MD: American

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