Binauralidade: O que é e sua importância para o desenvolvimento de linguagem

A audição é um dos sentidos mais importantes para o desenvolvimento humano. 

A partir do input auditivo o indivíduo tem contato com diversos tipos de estimulação e com isso acaba se desenvolvendo com base na quantidade e qualidade de estimulações que recebe.

Para garantir que isso ocorra da melhor forma possível é necessário saber como está a audição, realizado a partir de testes audiológicos, desde a triagem auditiva neonatal até o diagnóstico audiológico, quando necessário. Qualquer dificuldade no caminho do som irá afetar a quantidade e qualidade de estímulos recebidos, e com isso pode ocorrer atrasos no desenvolvimento.

Quando a perda auditiva ocorre em ambas orelhas o input bilateral fica prejudicado, e com isso um dos processos mais importantes da fisiologia da audição fica comprometido: a binauralidade.

A binauralidade nada mais é do que o input auditivo que chega para as duas orelhas, mas além disso, ela também envolve a capacidade do sistema auditivo nervoso central (SNAC) em somar, analisar e integrar estas informações para que posteriormente ocorra o processamento auditivo binaural, facilitando a compreensão de diferentes sons. Com isso o indivíduo estará apto a se comunicar em ambientes com diferentes fontes sonoras, mesmo com ruído excessivo, e possibilita uma comunicação eficiente.

As estruturas envolvidas no processamento binaural do som são os núcleos cocleares, complexo olivar superior, núcleos do lemnisco lateral, mesencéfalo, tálamo e córtex auditivo (Goffi-Gomez, 2014). Cada uma destas estruturas desenvolverá um papel importante no processamento binaural da informação sonora no SNAC. Na imagem abaixo, de autoria de Goffi-Gomez, 2014, é possível verificar o caminho binaural do som.

Referência: Goffi-Gomez M.V.S. M.V.S.Audição Binaural: Sistema Auditivo Central nas Habilidades Binaurais. In: Tratado de implante coclear e próteses auditivas implantáveis. Rio de Janeiro: Thieme Publicações Ltda, 2014, p. 41-43.

A partir dessa imagem peço que imagem um “X” em qualquer uma dessas estruturas, como se algo estivesse impedindo do som ser transmitido, ou até mesmo fragmentado. Fica fácil de visualizar que isso irá trazer prejuízos para a via auditiva binaural, mesmo que a alteração esteja somente em uma estrutura, de um lado.

É por este motivo que a própria surdez unilateral (audição normal de um lado e perda auditiva profunda na orelha contralateral) traz dificuldades nas habilidades auditivas binaurais. A surdez bilateral, de qualquer tipo e grau, influenciará ainda mais no desenvolvimento e eficiência destas mesmas habilidades.

Abaixo vamos entender melhor sobre quais são essas habilidades auditivas binaurais:

Efeito sombra da cabeça: o som recebido pelo ouvido direito chegará com tempo e intensidades reduzidas no ouvido esquerdo, pelo simples fato da cabeça ser uma estrutura física que atua como uma barreira. Com isso, a orelha que está mais perto da fonte sonora será beneficiada em ouvir melhor o som. Quando estamos em um ambiente ruidoso tendemos a oferecer uma orelha para a pessoa falar, justamente para favorecer a compreensão. Estudos demonstram que isso pode melhorar em 50% a inteligibilidade de fala.

Redundância binaural e interação binaural (squelch effect): é um processo que ocorre no córtex auditivo central. Ao receber um sinal, ou diferentes sinais sonoros, em ambos os ouvidos, estes são somados e integrados para gerar compreensão de cada um. Isso é comum quando estamos em um ambiente e conseguimos, ao mesmo tempo e sem perceber, conversar com alguém, saber qual música está tocando e que há carros passando na rua. Conforme a direção de cada um desses sons, escutamos mais alto e melhor a fala da pessoa à nossa frente, e mais baixo o ruído de carros passando na rua, pois está mais distante. Um dos privilégios da audição binaural e da audição normal. Atingir essas habilidades com próteses auditivas leva muito tempo e treino!

Localização sonora: receber o input auditivo em ambas orelhas torna mais fácil identificar suas características. As diferenças no espectro de frequências e na intensidade do som. Somado ao efeito de sombra da cabeça, fica mais fácil de localizar um som, pois haverá reconhecimento e compreensão de qual lado o som foi mais intenso.

Percepção de fala no ruído: como o próprio nome já diz, essa habilidade permite com que o indivíduo compreenda o que foi dito, mesmo em ambientes com ruídos competitivos. Isso é uma das habilidades que acabam sendo muito prejudicadas em casos de perda auditiva, seja ela uni ou bilateral, de qualquer tipo e grau. Infelizmente, mesmo com as próteses auditivas (AASI ou IC) essa habilidade necessita de muito treinamento auditivo na fonoterapia para que seja desenvolvida em crianças, e para que seja tão eficiente quanto em indivíduos normais, o que acaba sendo muito difícil de atingir, sujeitos que fazem uso de próteses auditivas sempre terão um pouco de dificuldade nessas situações.

Quando pensamos na fisiologia da audição e no desenvolvimento auditivo e de linguagem, é importante lembrar que a partir dos processos de input, somação e integração das informações de cada lado, a compreensão da fala fica facilitada.

Existem muitas variações na fala relacionadas a diferentes frequências, intensidade, tempo e duração de cada fonema, palavra e frase, e somente com muita exposição a tudo isso é possível desenvolver habilidades auditivas binaurais, e consequentemente de linguagem oral. 

Com a binauralidade é possível que cada orelha receba essas pequenas e mínimas diferenças de fase, intensidade, frequência e duração, e ao somar e integrar todas essas informações o córtex auditivo tem o papel de compreender o que foi recebido. É importante lembrar que cada habilidade é correspondente à faixa etária, não podemos esperar que uma criança de 8 meses de idade, por exemplo, compreenda frases com palavras que ela ainda não sabe o significado, a compreensão será compatível com a idade e experiência linguística.

Quando há perda auditiva, os mecanismos binaurais, necessários para o desenvolvimento auditivo e de linguagem, não acontecem, e por isso interferem no aprendizado e desenvolvimento de linguagem oral, no caso de crianças. Quando a privação sensorial passa dos 4 anos de idade o SNAC entende que não é necessário desenvolver habilidades auditivas, e com isso acaba por se tornar “expert” em outras, como por exemplo, tátil ou visual. É a teoria da compensação, na qual o cérebro acaba utilizando o córtex auditivo para receber outros inputs.

É por este motivo que os fonoaudiólogos insistem e lutam tanto para que aconteça o diagnóstico e reabilitação precoce da perda auditiva. Quanto antes for iniciado o uso de próteses auditivas em conjunto com a terapia fonoaudiológica, mais chances existem do sujeito desenvolver, ou recuperar, estas habilidades. Mesmo em casos em que há pouco benefício, a estimulação auditiva fornecida é importante, justamente para fornecer algum tipo de estimulação binaural ao SNAC, e com isso torná-lo mais preparado para receber e trabalhar com informações sonoras.

Porém, é importante lembrar que, apesar da estimulação das vias auditivas binaurais, nestes casos o tipo de audição não será binaural, e sim bilateral.

Quando há uso de prótese auditiva convencional e implante coclear chamamos de “Audição Bimodal”, quando o uso é de prótese auditiva convencional em ambas orelhas, ou implante coclear em ambas orelhas dizemos que existe uma “Audição Bilateral”. Para garantir que a binauralidade está ocorrendo se faz necessário avaliar a programação e regulagem dos dispositivos através de exames eletrofisiológicos, como o potencial evocado auditivo cortical, para verificar se o córtex auditivo está responsivo, e claro, observar o quanto o desenvolvimento das habilidades auditivas e de linguagem oral está sendo desenvolvida e o quanto eficientes são no dia a dia do sujeito.

Esse é o foco atual dos profissionais que atuam na área: garantir o uso de dispositivos bilaterais e com isso fornecer estimulação ao SNAC. Mas precisamos lembrar que existem muitos outros fatores, no caso da surdez e de dispositivos eletrônicos, como a etiologia, tempo de uso, idade em que foi realizada a cirurgia de implante coclear, entre outros, que interferem no desenvolvimento do sistema auditivo, e consequentemente na binauralidade.

O trabalho terapêutico fonoaudiológico é um dos fatores que mais auxilia neste caso, sendo primordial em casos de surdez e de transtorno do processamento auditivo, no qual os limiares auditivos são normais porém algumas dessas habilidades de somação, integração e compreensão também podem estar alteradas. É essencial divulgar cada vez mais a importância da fonoaudiologia, tanto no diagnóstico quanto na reabilitação desses casos.

E não nos esqueçamos de outros “personagens” tão importantes quanto em todo esse processo: família e escola. O trabalho para garantir o desenvolvimento auditivo e de linguagem precisa envolver uma rede de apoio multidisciplinar e oferecer sempre as melhores opções disponíveis para o indivíduo surdo.

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