Crianças usuárias de implante coclear com pais surdos: discussão sobre bilinguismo

O implante coclear (IC) é um dispositivo eletrônico indicado para pessoas com deficiência auditiva profunda e sem benefício com a prótese auditiva convencional. Este dispositivo é inserido cirurgicamente pelo médico otorrinolaringologista, e seus eletrodos farão o papel das células ciliadas dentro da cóclea, nosso órgão auditivo, que não estão funcionando adequadamente no caso de surdez.

Para a indicação de uso deste dispositivo é necessário a avaliação de uma equipe de saúde multidisciplinar para analisar os critérios do Sistema Único de Saúde (SUS), mesmo em serviços particulares estes critérios são avaliados e orientados a família, pois farão diferença no sucesso com o dispositivo.

Além da surdez profunda e falta de benefício com prótese convencional, a presença de um código linguístico estabelecido, fonoterapia e motivação da família são essenciais para que o IC possa trazer benefício ao desenvolvimento de audição e linguagem para a criança.

Este desenvolvimento tem seu período máximo até os 4 anos de idade, pois é o período de maior plasticidade neuronal e que mais sinapses estão acontecendo no cérebro da criança, ou seja, o aprendizado de coisas novas é favorecido, quanto mais estimulação, melhor para que ela se desenvolva. O IC vem para somar a tudo isso, como mais uma forma de estimulação, mas ele isoladamente não fará com que tudo isso aconteça, é necessário realizar terapia fonoaudiológica e estimulação da família.

Com isso, é possível compreender que se a criança tiver mais de 5 anos e sem nenhum tipo de linguagem, ou sem nenhum tipo de estimulação auditiva (por meio de aparelhos auditivos convencionais), ficará mais difícil para o IC trazer todo o desenvolvimento esperado, mesmo com reabilitação fonoaudiológica, pelo simples fato do sistema nervoso auditivo central já ter se desenvolvido e se reorganizado sem um input auditivo e sem código linguístico estabelecido, principalmente em casos de surdez congênita pré lingual, ou seja, desde o nascimento. Quando a surdez é pós lingual, ou seja, após a aquisição de habilidades auditivas e de linguagem oral, o IC pode sim trazer muitos benefícios. É por este motivo que muitas vezes vemos crianças que fizeram a cirurgia de IC com 5 anos ou mais e que tem benefício, provavelmente neste caso a surdez foi adquirida, ou o uso de próteses auditivas foi estabelecido antes dos 3 anos de idade e com isso o córtex auditivo estava mais preparado para receber estimulação elétrica do IC.

Porém, existem alguns casos que, mesmo fazendo tudo dentro do esperado, ou seja, diagnóstico e reabilitação precoce, a criança tem muita dificuldade em desenvolver a linguagem oral, e é neste caso que a LIBRAS entra como um apoio muito importante, e ás vezes até como a língua principal.

Precisamos desmitificar que só usa LIBRAS quem é surdo e não ouve nada. Existem muitos “surdos que ouvem”, como diz Paula Pfeifer, que falam, mas também usam LIBRAS, que são os chamados bilíngues, e outros que fazem uso de IC e usam somente a LIBRAS para se comunicar.

Mas será que isso significa que a cirurgia não deu certo? NÃO! O desenvolvimento da linguagem oral é mesmo muito difícil de ser atingido, e muitos fatores podem facilitar ou prejudicar este desenvolvimento, mesmo com uso correto de dispositivos eletrônicos e fonoterapia, fatores como motivação familiar, tempo de horas de uso durante o dia, entre outros, podem prejudicar esse processo mais do que imaginamos.

É muito importante que isso seja divulgado para que mais pessoas compreendam a complexidade da surdez. Porém, existe um grupo de pais que entende e conhece muito bem o que é uma perda auditiva e as possíveis vivências que ela traz. Falamos aqui de pais surdos que tem filhos também diagnosticados com surdez, e que na maioria das vezes não utilizam IC, somente  aparelho auditivo convencional, outras vezes não fazem uso de nenhum dispositivo eletrônico, e utilizam a LIBRAS como forma de comunicação. 

É comum que quando essas famílias tem um filho surdo, em tempos como hoje, em que existem avanços tecnológicos, surja o interesse de pesquisar melhor sobre o IC e entender o que ele pode fornecer ao seu bebê. A possibilidade de se comunicar oralmente com o auxílio deste dispositivo é o interesse de muitos pais surdos a seus filhos. 

E também podem existir aqueles que não desejam que a criança use próteses auditivas e se comunique por LIBRAS, assumindo assim sua identidade surda. Essa é uma discussão para outro artigo e que envolve outros fatores, porém, é importante que os profissionais da saúde saibam que esta é uma opção, e que a escolha entre um caminho ou outro deve ser da família e responsáveis, desde que entendam as consequências, positivas e negativas, do caminho escolhido. Acredito que este é o nosso papel: apresentar caminhos e as dificuldades e prazeres de cada um deles, e depois disso somente ouvir o que a família deseja seguir, com consciência.

Porém, se faz necessário o diagnóstico audiológico justamente para entender e decidir o melhor para a criança.

A intenção com este artigo é divulgar, tanto para profissionais quanto para as famílias, que existe um caminho no meio, no qual o implante coclear, a linguagem oral e a LIBRAS podem andar juntas, e isso é mais comum do que parece, vejo muito este tipo de caso na minha rotina clínica.

É o que a literatura costuma chamar de “bilinguismo” na área da surdez e alguns artigos científicos já abordam esse tema, sugiro a leitura do estudo de Melo et al, 2012 “Audição e linguagem em crianças deficientes auditivas implantadas inseridas em ambiente bilíngue: um estudo de casos”, onde a ideia para este tema surgiu.

Infelizmente, vejo que ainda existe muito desconhecimento e preconceito acerca deste tema, pois parece que crianças usuárias de implante coclear precisam, obrigatoriamente, desenvolver e utilizar a linguagem oral, assim como, obrigatoriamente, quem usa LIBRAS não pode usar próteses auditivas.

Como já comentei, entendo que é um tema delicado que envolve profissionais de outras áreas e toda uma comunidade que defende esta causa, mas enquanto profissional da área de surdez acredito muito em meio termos. Eu vejo, quase que diariamente, o sofrimento que acomete esses pacientes e famílias por não conseguirem se comunicar de forma nenhuma, por que não oferecer duas opções? A LIBRAS é um apoio importantíssimo para a aquisição de linguagem oral, e até mesmo para que o sujeito se sinta seguro de que vai conseguir se comunicar, de uma forma ou de outra. Isso é o meu conceito de inclusão.

Mas aqui fica também um aviso: a LIBRAS é uma língua, ou seja, precisa ser treinada e praticada como qualquer outra. É muito importante que a família utilize essa língua para que a criança aprenda. Lembrem-se que a criança aprende por repetição e imitação, ela seguirá o que é feito em casa.

Não adianta querer que a criança use uma língua que ninguém em casa sabe, é necessário aprender junto e transformar esse momento em uma experiência única de união entre a família e a criança.

Para finalizar, devemos ter em mente que existe bilinguismo na surdez, e a partir da minha experiência clínica, posso dizer que isso traz mais segurança, conforto e inclusão dos sujeitos que, mesmo usando implante coclear, não conseguiram atingir a linguagem oral plenamente, e tudo bem, isso não é culpa do médico ou do fonoaudiólogo, nem mesmo da família ou do paciente. Fatores como tipo de perda auditiva, idade no momento da cirurgia, tempo de horas de uso por dia, entre muitos outros pode afetar esse desenvolvimento, e enquanto profissionais e defensores dessa área temos que fornecer acolhimento e opções para que a inclusão de pessoas surdas se torne uma realidade.

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