Triagem auditiva neonatal

Quem vê cara, não vê cóclea, é o que costumamos dizer aqui no nosso local de trabalho. Crianças recém-nascidas são lindinhas e fofinhas, mas sim, podem ser surdas. E para que esta criança lindinha e fofinha tenha a chance de se desenvolver plenamente com todas as suas capacidades, é que o teste da orelhinha nasceu.

A triagem auditiva neonatal, ou também chamado Teste da orelhinha, é um exame realizado para verificar se há ou não células ciliadas ativas na cóclea. Isto é, se as células da cóclea vibram com uma baixa intensidade de som. É uma triagem e virou lei em 2010, a partir desta data todos os bebês em maternidade têm o direito de realizar este exame.

Estima-se que a prevalência da perda auditiva congênita seja de 1,7/1000 e com variação de 0-11.1 por 1000 nascidos vivos. Se forem considerados aqueles com indicadores de risco para a deficiência auditiva, esta ocorrência pode aumentar em até 10 vezes.

Desta forma, todos os recém-nascidos devem realizar este teste antes da alta hospitalar, e no máximo, no seu primeiro mês de vida. Na maternidade, recomenda-se a realização dos procedimentos de Emissões Otoacústicas Evocadas (EOA) em crianças sem Indicadores de Risco para a Deficiência Auditiva (IRDA), e do Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico – Automático (PEATE-A), em crianças com indicadores de risco, e em especial naquelas que permaneceram na UTI neonatal por mais de 5 dias. Caso a criança falhe na TANU antes da alta hospitalar, recomenda-se que ela faça um novo teste (chamado de RETESTE) após 15 dias da alta hospitalar. Caso esta falha permaneça, deve-se realizar o encaminhamento para diagnóstico médico e audiológico com o objetivo de confirmar a existência ou não da perda auditiva. Tem-se como meta, portanto, a realização da TANU no primeiro mês de vida; a confirmação da perda auditiva até o terceiro mês de vida; a intervenção clínico-terapêutica deve ter início no terceiro mês de vida e até no máximo no sexto mês. Estas ações propiciam as melhores condições para tratamentos disponíveis, pensando-se na plasticidade neuronal da criança.

Tudo isso que eu escrevi até agora é a teoria. Mas, infelizmente, sabemos que a nossa realidade não é sempre esta. Na minha prática clínica vejo ainda, 11 anos depois da sanção da lei, crianças que chegam com 2 ou 3 anos, com atrasos de linguagem e que não foram bem encaminhadas com a triagem auditiva.

É a partir desta triagem que vamos escrever a história da criança, com relação à socialização, cognição, aprendizagem, memória, auto-estima, e isto sem mencionar a comunicação, que é inerente ao ser humano. 

A detecção precoce de uma perda auditiva (independente de grau) vai estabelecer a forma de como esta criança vai se comunicar. Caso a família e os profissionais envolvidos optem por aparelhos auditivos ou implantes cocleares o quanto antes, sempre melhor, pois sabe-se que as conexões neurais na criança acontecem muito rapidamente. Caso a família opte pela comunicação gestual, a Libras, esta também deve se iniciar logo para permitir a criação das conexões neurais responsáveis pela comunicação.

Uma criança que passa no teste da orelhinha e não tem fatores de risco para perdas auditivas, não está isenta de ter perda de audição em algum outro momento da vida. Vários são os fatores que podem interferir na audição no decorrer da vida. Na infância o mais comum são as infecções de orelha média, as famosas otites, que prejudicam a audição das crianças e estas perdas auditivas podem ser temporárias ou não. Por isso a necessidade de fazer um acompanhamento audiológico em todas as crianças até os três anos de vida, ou seja, quando a linguagem e a fala estão mais desenvolvidas.

Então, eu fecho este meu texto com outra frase que gosto muito de dizer, toda criança deve ter um otorrino pra chamar de seu. A audição é um sentido muito importante para ser deixado de lado e qualquer perda auditiva, mesmo que mínima, faz diferença na vida dos nossos pequenos.

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