Manifestações do Transtorno do Processamento Auditivo Central nas escolas

As investigações sobre o Transtorno do Processamento Auditivo e suas manifestações no ambiente escolar, apontam grande interesse da comunidade científica, de profissionais de saúde, da educação e de pais e responsáveis, visto que alterações nas habilidades auditivas têm impacto em nossas atividades cotidianas, em especial no que se refere a comunicação e, é de fundamental importância para o sucesso acadêmico.

Para falarmos sobre o assunto, salientamos a importância de conhecermos o que é Processamento Auditivo Central (PAC) e quando consideramos o Transtorno do Processamento  Auditivo Central (TPAC).

De acordo com consenso promovido pela American Speech-Language-Hearing Association (ASHA), o processamento auditivo foi definido como “mecanismos e processos do sistema nervoso auditivo” (ASHA, 1995), os quais capacitam a decodificação e o entendimento da fala, especialmente em situações desfavoráveis, como na presença de ruído de fundo ou fala competitiva (Jerger e Musiek, 2000). 

O som, após ser detectado pela orelha interna, sofre inúmeros processos fisiológicos e  cognitivos para que seja decodificado e compreendido. Estes mecanismos e processos do sistema  auditivo central incluem habilidades como lateralização e localização espacial do som,  compreensão da fala no ruído, compreensão de uma mensagem, mesmo quando ela está distorcida  e fragmentada; capacidade para eleger estímulos apresentados a uma orelha, ignorando  informações apresentadas à orelha oposta e/ou reconhecer estímulos diferentes apresentados  simultaneamente a ambas as orelhas; capacidade de discriminar e identificar pequenas mudanças nos estímulos como diferenças de frequência, intensidade, ou duração e capacidade de detectar e perceber modulações e intervalos mínimos em uma sequência de sons (Guia de Orientação Avaliação  e Intervenção no Processamento Auditivo Central, 2020). 

O TPAC é definido como um déficit em um ou mais processos auditivos centrais, sendo caracterizado por uma ou mais alterações nas habilidades de localização e lateralização sonora; discriminação; reconhecimento auditivo e dos aspectos temporais da audição como: resolução, mascaramento, integração e ordenação temporal (ASHA, 2005). 

A Sociedade Britânica de Audiologia (2011) define as seguintes três categorias de TPAC:

1. Transtorno do Processamento Auditivo do Desenvolvimento: casos que se apresentam na infância com acuidade auditiva normal (ou seja, audiometria normal) e nenhuma outra etiologia conhecida ou fatores de risco potenciais. O TPAC do desenvolvimento pode continuar na idade  adulta para alguns indivíduos, enquanto outros podem demonstrar melhora nas pontuações dos  testes dentro da faixa média ao longo do tempo. 

2. Transtorno de Processamento Auditivo Adquirido: casos associados a um evento  conhecido (por exemplo, lesão cerebral adquirida, acidente vascular cerebral, tumores, infecção e  deterioração neurológica relacionada à idade) que poderia explicar de forma plausível o TPAC. 

3. Transtorno do Processamento Auditivo Secundário: casos em que o TPAC ocorre na  presença ou como resultado de uma deficiência auditiva periférica. Isso inclui deficiência auditiva  transitória relacionada à otite média ou perda auditiva progressiva relacionada à presbiacusia. 

Nesse artigo nos atentamos, principalmente, ao Transtorno do Processamento Auditivo  Central do Desenvolvimento e suas manifestações no ambiente escolar. O TPAC é primariamente  um déficit da percepção auditiva e deve ser demonstrado e diferenciado dos demais transtornos de  desenvolvimento, da cognição ou da linguagem.

O encaminhamento para uma avaliação do processamento auditivo de uma criança em  idade escolar, deve ser baseado no impacto das dificuldades do processamento auditivo no  desempenho e na participação na escola, em casa e na comunidade. No entanto, os sintomas do  TPAC são comumente compartilhados com outros transtornos, e pesquisas indicam que muitas  crianças com TPAC apresentam evidências de dificuldades de linguagem e de aprendizagem, e  muitas crianças com diagnóstico de dificuldades de linguagem e aprendizagem mostram  evidências de dificuldade em muitas tarefas de processamento auditivo (British Society of Audiology, 2011). Portanto, para o adequado diagnóstico do TPAC é imprescindível uma avaliação  adequada das habilidades auditivas, com a utilização de testes auditivos sensíveis para disfunções auditivas centrais, realizada por profissional fonoaudiólogo com experiência na área e avaliação  multidisciplinar para investigar déficits de linguagem e cognição. O TPAC pode coexistir com  outros transtornos, contudo ele não é resultado e nem consequência de déficits globais, em altas habilidades ou multimodais (Guia de Orientação Avaliação e Intervenção no Processamento Auditivo Central, 2020). 

Assim, quando realizado o diagnóstico do TPAC, a criança deve receber o tratamento adequado para que suas manifestações e implicações no desempenho acadêmico sejam minimizadas, o profissional fonoaudiólogo deve estar presente na equipe que atuará no processo terapêutico da  criança, já que a intervenção em TPAC deverá ser realizada exclusivamente pelo fonoaudiólogo. 

As manifestações comportamentais do TPAC são: dificuldades em localização sonora; piora do desempenho em locais com sinal acústico degradado ou com competição; aumento do  tempo para responder aos sons; dificuldade para discriminar, comparar ou aprender novos sons; solicitação frequente de repetição (Hã? O quê?); dificuldade em entender e, por consequência,  seguir regras e ordens; dificuldade nos mecanismos de atenção auditiva. 

Como podemos notar, as manifestações do TPAC, implicam em habilidades essenciais para  o processo de aprendizagem no ambiente acadêmico e diante do seu diagnóstico, além do adequado  processo terapêutico individualizado, algumas adaptações devem ser elaboradas de acordo com as  manifestações apresentadas pela criança, sempre orientadas por profissional fonoaudiólogo  especializado. 

Bibliografia

American Speech-Language-Hearing Association (ASHA). Central auditory processing: current status of  research and implications of clinical practice. Rockville, (1995). 

American Speech-‐Language-‐Hearing Association. (Central) Auditory Processing Disorders [Technical Report], (2005).

British Society of Audiology. Position Statement: Auditory Processing Disorders. Retrieved from http://www.thebsa.org.uk/images/stories/docs/BSA_APD_PositionPaper_31March11_FINAL,  (2011). 

Guia de Orientação Avaliação e Intervenção no Processamento Auditivo Central, Conselho De  Fonoaudilogia, agosto de (2020). Jerger, J.; Musiek, F. E. Report of the consensus conference on the diagnosis of auditory processing  disorders in school-aged children. J. Am. Acad. Audiol., v. 11, n. 9, p. 467-474, (2000).

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