Relato de experiência de uma enfermeira deficiente auditiva com implante auditivo

Sou Taiane Emyll, Enfermeira formada pela Universidade Estadual do Ceará, com Pós graduação em Enfermagem Cardiovascular e Hemodinâmica, atualmente trabalho como Enfermeira assistencial de posto cirúrgico em um hospital particular de Fortaleza. Tenho perda auditiva neurossensorial profunda no ouvido direito devido a meningite aos 4 anos de idade e perda moderada condutiva no ouvido esquerdo desde 24 anos devido a otites (infecções no ouvido) de repetição. E desde meus 28 anos sou usuária de implante auditivo ancorado ao osso bilateral.

O uso das próteses auditivas, que no meu caso são do tipo Bonebridge, me ajudam a exercer minha profissão. Mas, confesso que mesmo com o uso delas, ainda existem momentos que tenho dificuldades em escutar.

Com a chegada da pandemia algumas dificuldades aumentaram, tal como o uso de máscaras, que é uma das coisas que mais dificultam a comunicação, pois vem a barrar o uso da leitura labial. Que nada mais é do que a observação dos movimentos dos lábios e da boca do interlocutor, e vale salientar que tal ação é realizada não somente por deficientes auditivos, mas pelos ouvintes também de forma inconsciente com a finalidade de tornar a comunicação mais efetiva. (PINHEIRO, ROCHA-TOFFOLO e VILHENA, 2020; HILARY, et al, 2022).

Assim que comecei a exercer minha profissão ainda não usava implante auditivo, sentia muita dificuldade em conversar com meus pacientes durante a visita de Enfermagem no beira leito, conversar com a minha equipe em um lugar barulhento ou até receber o plantão da colega. Procurava sempre virar o rosto para o lado que tinha melhor audição, porém nem sempre era o suficiente, pois dependendo do ambiente, se tivesse muito barulho, escutar era praticamente impossível. 

Uma das formas que encontrei de enfrentar tais barreiras na comunicação foi relatando a deficiência e a dificuldade em escutar, principalmente quando pedia para repetir mais de uma vez o que o outro falava, seja com o paciente ou com a equipe de saúde com quem eu estava trabalhando, a fim de se criar uma conscientização das minhas limitações.

Ao relatar a deficiência, nunca presenciei nenhuma forma de preconceito, pelo contrário, só encontrei de incentivo, tais como, a pessoa procurar formas de melhorar a comunicação comigo, seja aumentando o volume da voz, ou tentando melhorar a dicção das palavras faladas, ou até falar mais perto do meu ouvido com melhor audição ou até em alguns casos abaixar a máscara quando tentado mais de uma vez para que houvesse  a leitura labial. 

No que diz respeito em realizar procedimentos que envolvem o sentido da audição, tais como ausculta com o estetoscópio, por ainda ter um pouco de audição no ouvido esquerdo isso me ajudou de alguma forma a conseguir usá-lo, porém como também existe perda auditiva nesse ouvido, tenho dificuldade em usá-lo. 

Na minha realidade prática do setor que trabalho, eu pouco utilizo estetoscópio, mas quando preciso usar, a tecnologia avançada vem a ajudar, pois, o meu estetoscópio é de uma marca e modelo que permite uma melhor ausculta quando comparados a aqueles modelos tradicionais/populares. Por ser mais caro, e não ser disponibilizado pelas instituições, sempre levo o meu na bolsa, para quando precisar utilizar ele estar lá. Existem ainda outros modelos disponíveis no mercado que se conectam por via Bluetooth ao aparelho auditivo que tem esse tipo de conectividade.

Após a cirurgia e ativação do meu implante auditivo, as barreiras que eu encontrava na minha prática devido a deficiência auditiva diminuíram consideravelmente. Passei a escutar melhor meus pacientes e a minha equipe, melhorando assim a comunicação mesmo com o uso das máscaras, o que antes eu não conseguia fazer muito bem.

Os aparelhos auditivos vêm auxiliar no processo de escutar melhor, podendo ser amplificadores, de condução óssea ou implantes cocleares. Esses têm como missão proporcionar uma melhor qualidade de vida, uma maior inclusão do usuário na sociedade e nas atividades diárias, seja por poder interagir em uma conversa na roda de amigos ou participar de palestras (DAVIDSON, MARRONE E SOUZA, 2022; FIERENS, 2022).

Durante a pandemia ao trabalhar na linha de frente da Covid-19, com pacientes internados com a doença, tive dificuldades no uso de um dos EPI’s (Equipamentos de proteção individual) utilizados na paramentação chamado de Face Shield (figura 1), esse é um protetor facial, que ao ser usado ficava em cima do meu implante, o que vinha a impossibilitar o uso dos dois ao mesmo tempo.

No começo, eu retirava o implante, mas no decorrer da pandemia, utilizava somente os outros EPI’s e procurava tomar cuidados redobrados ao retirar a paramentação após ter contato com o paciente e na lavagem das mão, a fim de evitar contágio da doença.

Figura 1: Exemplo de modelo de face shield usado durante a pandemia

Outro obstáculo enfrentado é com relação ao uso de telefone fixo em virtude do seu volume baixo, onde algumas vezes não consigo escutar bem, seja no ouvido que ainda tem audição restante, bem como pelo implante. Quando acontecem esses casos, muitas vezes o colega liga para o telefone móvel do setor, que tem um melhor volume e onde consigo atender até pelo meu implante, essa prática se dá por saberem da minha limitação em que não se opõem. 

Por trabalhar atualmente no setor cirúrgico algumas vezes me deparo com alguns pacientes que vão colocar implantes auditivos, em sua maioria crianças menores de 7 anos. Seja do tipo coclear ou igual aos meus, ancorado ao osso. Percebo que ao relatar para suas famílias que também sou deficiente auditiva e usuária de implante elas ficam mais tranquilas, perdem suas incertezas com relação ao implante, e principalmente por saberem e perceberem que a perda auditiva e o uso de aparelhos, independente de qual o tipo, não impedem que seus filhos um dia venham a se formarem e exercerem a profissão que quiserem. 

Percebo a importância da troca de saberes, experiências daqueles profissionais que têm algum tipo de deficiência com aquelas pessoas que sonham um dia seguirem uma certa profissão e que por medo, receio devido as suas limitações deixam de irem em busca dos seus sonhos. Afim de mostrar que por mais que encontremos barreiras durante o processo da nossa formação acadêmica, seja na faculdade durante as aulas, como na prática exercendo a nossa profissão, devemos buscar formas de vencer as barreiras que aparecem, seja como o uso dos nossos aparelhos auditivos, conscientização da sociedade e daqueles que convivem conosco, e que sim, podemos ter limitações mesmo com o uso de aparelho e que podemos vencê-las. Hoje podemos trazer a tecnologia ao nosso favor para termos uma melhor qualidade de vida e poder cuidar daqueles que mais precisam sendo Enfermeiros com deficiência auditiva.

REFERÊNCIAS

DAVIDSON, A; MARRONE, N; SOUZA, P. Hearing Aid Technology Settings and Speech-in-Noise Difficulties. American Journal of Audiology, V. 31, P. 21-31, 2022.

FIERENS, G. et al. O Impacto da Localização e do Acoplamento do Dispositivo no Desempenho do Atuador do Sistema Osia. BioMed Research International , V. 2022, P, 1- 12, 2022. 

HILARY, K. et al, Outcomes in patients with and without disability admitted to hospital with COVID-19: a retrospective cohort study. CMAJ .V. 94, N. 4,  p. 112- 121, 2022.PINHEIRO, A. M. V; ROCHA-TOFFOLO, A. C; VILHENA, D. A. Estratégias de leitura em surdos profundos usuários da Libras: benefícios da oralização e da leitura labial para o fortalecimento de habilidades linguísticas. Estudos de Psicologia (Campinas), v. 37, 2020.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: