A importância da representatividade no mundo da surdez

Segundo o dicionário Aurélio (2022) a palavra REPRESENTATIVIDADE significa “Qualidade de representativo. Qualidade de alguém, de um partido, de um grupo ou de um sindicato, cujo embasamento na população faz com que ele possa exprimir-se verdadeiramente em seu nome”. Mas na prática, o que esse conceito quer dizer?

Representativa é a expressão dos interesses de um grupo na figura do representante, neste caso, a figura do surdo (ou deficiente auditivo) que representa outros surdos. Assim, aquele que fala em nome do coletivo o faz comprometido com as demandas e necessidades dos representados. Portanto, falar de representatividade revela o sentido político e ideológico por trás do termo (BOBBIO, 1998).

A representatividade tem como fator a construção de subjetividade e identidade dos grupos e indivíduos que integram esse grupo. Ou seja, não é apenas a organização de grupos buscando que seus interesses sejam representados e garantidos, mas é sobretudo parte da formação do indivíduo que compõe esse grupo.

No mundo da surdez, a representatividade torna-se importante e fundamental para que os surdos – sejam eles oralizados ou usuários de Libras, com ou sem dispositivos eletrônicos – sejam notados e reconhecidos em suas potencialidades.

Para uma criança surda, conhecer e se reconhecer em outro indivíduo surdo é motivador, promove auto-estima e autoconfiança e para além do exemplo de vida, dá-se o acolhimento enquanto indivíduo com deficiência. Há pouco tempo atrás não se encontrava bonecos de brinquedo usuários de aparelhos auditivos ou implantes cocleares, sendo que há relatos de adultos que quando crianças desenhavam aparelhos em seus próprios bonecos. Desta forma, visando representar a infância e o lúdico no mundo da surdez, muitas empresas estão se adequando a essa necessidade e criando coleções com bonecos surdos, como fez a Mattel com sua primeira Barbie surda, recentemente lançada em meados de agosto de 2022.

Já para os adultos, observa-se que o representante surdo passa a servir como modelo e estrutura motivadora que muitas vezes irá impulsionar a busca por uma profissão impensada (ou que foi taxada com improvável aos surdos, e cujas outras pessoas impuseram barreiras e empecilhos). Para cada surdo que conquista uma posição de destaque, independente da profissão, outros surdos se sentem capazes de alcançar o mesmo feito.

Fora isso, observa-se forte apelo e busca pela representatividade no âmbito das questões emocionais e sócio afetivas para com seus pares, nos envolvimentos amorosos e até no envolvimento em ambiente familiar. As redes sociais promoveram alta visibilidade à comunidade surda, tanto aos usuários de Libras, como aos usuários de tecnologias. As trocas de experiências e vivências no espaço cibernético são imprescindíveis para demonstrar habilidades e gerar empatia, tanto de surdo para surdo, como de surdos para ouvintes. Além disso, tornou-se um espaço democrático para as interações sociais e portanto, deve ser explorado e garantido como um espaço de representatividade surda.

Já para as famílias, sentir-se representado também proporciona acalento e tranquilidade no momento da busca pelo diagnóstico, nos aconselhamentos de reabilitação e nas atividades que desempenham e em seus papéis que compõem a vida diária em grupo. Para os idosos, observa-se que a representatividade trouxe maior autoconfiança no momento de optar pela colocação de aparelhos auditivos e na afirmação positiva diante a dificuldade.

Todos que são considerados minorias sociais, ou seja, que não são minorias em quantidade, mas em representação necessitam de apoio e respeito. Por isso devemos elevar a importância da representatividade em espaços públicos, como em escolas e universidades, na política, na televisão, em novelas, filmes, no jornalismo, nos cargos de maior poder e prestígio social.

O intérprete de Libras na televisão, assim como o acesso às legendas simultâneas, devem ser incentivados pela população em geral e cobrado pelas nossas autoridades.

Um exemplo bastante atual sobre a representatividade surda foi observado na última premiação do Oscar, onde o filme CODA (em tradução brasileira, No Ritmo do Coração) estrelado por atores surdos foi contemplado com a sonhada estatueta após 94 anos de premiações. Para a celebração, Gabriel Isaac, ator do filme, declarou sua alegria e emoção com a indicação. Colocou traje de gala para gravar um vídeo em que ressalta a importância do momento e afirmou: “A comunidade surda vibrou com essa notícia visto que a representatividade é uma coisa muito importante para nós”. Esse momento mostrou que é possível ultrapassar todas as barreiras na área cinematográfica e com a surdez foi possível realizar seu papel com perfeição. 

Andrade (2020) afirmou ser relevante entender que além de um direito, essa busca também pode ser vista como uma luta por reconhecimento e reparações de discriminações históricas. As cotas voltadas para Pessoas com Deficiência – PCDs, incluindo os surdos se inserem nesta reparação e o incentivo ao estudo e trabalho deve ocorrer da forma mais precoce possível, visando a busca pela autonomia e independência.

Por isso, se você é surdo ou deficiente auditivo, busque representar sua existência com ações afirmativas de uma pessoa com deficiência no seu cotidiano. Lembre-se da sua importância para sua comunidade, família, escola e sociedade.

Vale ressaltar que a representatividade é um fator construtivo de sociedades para garantir as diferenças, diversidades e a pluralidade política, social e cultural. E que ainda há um longo e prazeroso caminho a ser percorrido por todos nós.

Andrade.R. Representatividade:  o que isso significa? disponível em: politize.com.br, 2020

Noberto Bobbio: Dicionário de Política. Brasília: Editora UnB, 1998.

Um comentário em “A importância da representatividade no mundo da surdez

  1. Em Portugal há falta de pessoas para representar os surdos oralizados ou pessoas com deficiência auditiva que usam prótese ou implantes auditivos. Eu quando ajudei na fundação da associação OUVIR, eramos um grupo restrito de pessoas, e hoje somos menos. Um trabalho voluntário não remunerado é uma dor de cabeça, um empecilho para dar um rumo na vida de alguém, que precisa de um salário e uma actividade profissional regular.
    Aceitei ser o presidente da associação, porque mais ninguém quis!… Infelizmente as pessoas têm medo de dar a cara! Eu nunca receei nada, e até já estive na comunicação social, televisões e jornais. Tenho uma enorme honra e orgulho pelo que consegui, e se fosse hoje, tornaria a fazer o mesmo.

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