Fatores de risco para perda auditiva

A perda auditiva é um assunto muito importante para a saúde pública, devido a sua alta prevalência- se estima que 5.3% da população mundial tenha alguma alteração auditiva- e aos efeitos negativos no desenvolvimento infantil; qualidade de vida e impacto emocional e cognitivo em todas as faixas etárias. 

A detecção e o tratamento precoce diminuem drasticamente os efeitos negativos desta alteração. 

A perda auditiva permanente afeta 1 a cada 1.000 recém nascidos e tem efeitos negativos na linguagem, cognição e nas habilidades socioemocionais das crianças, principalmente em caso de diagnóstico tardio. 

Além da realização do teste da orelhinha de maneira universal, é importante incentivar o seguimento dos pacientes com fatores de risco para hipoacusia progressiva.

Atualmente os protocolos de screening auditivo também incluem os fatores de risco para perda auditiva na infância e orientam sobre o seguimento adequado para cada um deles.

Segundo o guideline de 2019 do Joint Committee on Infant Hearing (JCIH) os pacientes com fatores de risco para perda auditiva ( tabela 1) devem ser monitorizados de perto.

PERINATALPERINATAL OU PÓS NATAL
Histórico familiar de perda auditiva precoce, progressiva ou de apresentação tardia na infância.Infecções associadas com surdez com cultura positiva, incluindo meningite ou encefalite bacteriana e viral (especialmente herpes simples e varicela)
Histórico de internação em UTI neonatal por mais de 5 diasEventos associados com perda auditiva: Traumatismo crânio encefálico, especialmente em caso de fratura de base de crânio. Quimioterapia
Hiperbilirrubinemia com necessidade de exsanguineotransfusão Preocupação dos cuidadores com a audição e/ou linguagem , atraso ou regressão do desenvolvimento 
Uso de aminoglicosídeos por mais de 5 dias
Encefalopatia por asfixia ou hipóxia isquêmica 
Oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) 
Infecção intrauterina:  herpes, rubéola, sifilis, toxoplasmose, citomegalovírus e zika.
Certos achados ao nascimento: Malformação crânio facial, incluindo microtia/ atresia, displasia ótica, fenda palatina, mancha branca no cabelo e microftalmia Microcefalia ou hidrocefaliaAlterações do osso temporal
Síndromes genéticas associadas com surdez

Entre jovens e adultos os riscos incluem  fatores genéticos, exposição a ruídos recreacionais ou ocupacionais, uso de medicamentos ototóxicos, comorbidades, otites, infecções e envelhecimento.

Ototóxicos

A ototoxidade é um efeito adverso de alguns medicamentos que leva a danos auditivos. 

Embora o uso de uma dose única possa causar efeitos adversos em alguns casos, o uso prolongado aumenta o risco. Além disso, também depende da via de administração, dose,  sensibilidade individual, genética e associação com alteração hepática ou renal.

Os principais medicamentos ototóxicos são os antibióticos aminoglicosídeos e macrolídeos, quimioterápicos à base de platina, diuréticos de alça, anti-maláricos, AINES e AAS.

Exposição a ruídos

A perda auditiva induzida pelo ruído pode ser secundária a estímulos intensos de curta duração ou menos intensos, mas por longos períodos de exposição. Parece também estar relacionada a fatores genéticos, já que o impacto é diferente entre os indivíduos expostos ao mesmo tipo de ruído.

Em alguns casos, a perda auditiva pode não ser identificada em uma audiometria clínica. Atualmente, se suspeita de sinaptopatias nos casos com antecedente de exposição que tem alteração na percepção de fala, mas com audiograma normal. 

Apesar de que perda auditiva induzida por ruído ocupacional (PAIRO) seja uma causa comum, os indivíduos que não trabalham em ambientes com essas condições também estão sujeitos ao dano induzido pelo ruído, já que podem estar expostos aos sons de alta intensidade presentes na vida moderna:  academia, cinema, festas e shows, por exemplo.

Doenças crônicas

Existem fortes evidências de que a obesidade, o tabagismo, a diabetes mellitus e as doenças cardiovasculares são fatores de risco para surdez. 

Indivíduos com diabetes têm o dobro de risco de hipoacusia em comparação aos pacientes sem essa doença. No entanto, ainda não se sabe se o controle dos níveis glicêmicos interfere na diminuição do risco. 

A hipertensão arterial também está associada a danos cocleares que levariam a surdez. Além disso, existem mais de 20 doenças renais e algumas doenças autoimunes como artrite reumatóide, lúpus eritematoso sistêmico, síndrome de Cogan e sarcoidose que estão relacionadas à perda auditiva.

Fatores Genéticos

Se estima que de 25 a 55% das perdas auditivas em adultos estão relacionadas a fatores genéticos. Aproximadamente 30 mutações genéticas estão associadas à surdez em adultos. Adicionalmente, mais de 500 síndromes associadas à surdez já foram descritas. A presbiacusia parece também ter  predisposição genética para o seu desenvolvimento.

Conexina 26 – gene GJB2 

É a principal causa de surdez autossômica recessiva no mundo. Se acredita que é responsável pela metade das perdas auditivas hereditárias.

Se deve a uma mutação que causa hipoacusia não relacionada com síndromes, de aparição  pré lingual, de grau leve a profunda, a depender do tipo de mutação. Dois terços dos casos são não progressivos e, na maioria das vezes, não apresentam alterações vestibulares associadas.

Envelhecimento

A presbiacusia ocorre não só pela degeneração da cóclea secundária ao envelhecimento, mas também devido ao efeito cumulativo da exposição a ruídos, uso de ototóxicos e coexistência de doenças crônicas.

Otites

A perda auditiva secundária às otites pode ser transitória, como no caso das otites médias serosas, ou permanente. As otites podem causar hipoacusia condutiva, mista ou neurossensorial, tanto por perfuração timpânica e/ou erosão da cadeia ossicular, como por danos cocleares devido a mediadores inflamatórios. 

É mais prevalente nos países em desenvolvimento e está associada ao diagnóstico tardio e ao tratamento inadequado das otites.

Infecções

Além das otites, outras infecções são responsáveis pelo comprometimento auditivo de alguns pacientes. A meningite é um grande exemplo, principalmente quando secundária ao streptococcus pneumoniae. 

Muitos vírus podem causar surdez congênita ou adquirida. O mecanismo, o tipo e o grau da perda auditiva são variáveis. As principais doenças virais que poderiam causar surdez são citomegalovirose, rubéola, HIV, herpes simples, sarampo, varicela e caxumba. 

A surdez pela covid ou pela vacinação contra essa doença também é um assunto bastante discutido na atualidade, embora ainda não se tenha evidências suficientes para estabelecer essa relação. 

O conhecimento dos fatores de risco para surdez é importante não só para os profissionais da área da saúde, mas também para população geral, uma vez que muitos deles são previsíveis ou tratáveis e, de não ser assim, o seu reconhecimento pode auxiliar no diagnóstico e na reabilitação precoce, melhorando a qualidade de vida dos afetados.

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