O perigo do uso de hastes flexíveis com algodão (cotonete)

Você utiliza cotonete para higienizar seus ouvidos? Vamos repensar essa prática?
As hastes flexíveis, os conhecidos cotonetes, são popularmente utilizados como utensílio para a limpeza do conduto auditivo externo, onde encontramos o cerume. Porém, não é recomendado o uso do cotonete ou de qualquer outro objeto que alcance o local para higienizar a área. Existe um grande risco de lesão no local, como cortes, perfurações timpânicas e deslocamento dos ossículos da orelha média.

O que é o Cerume?

O cerume, costumeiramente visto como “sujeira”, na verdade, constitui parte do mecanismo de defesa da orelha externa contra corpos estranhos e agentes infecciosos, lubrificando e limpando o canal. É composto por produtos das glândulas sebáceas, variando em quantidade de acordo com o grupo étnico. Os movimentos habituais da mandíbula, como falar e mastigar, juntamente com o crescimento da pele dentro do canal auditivo externo, comumente auxiliam a mover o cerume de dentro para fora do canal auditivo, onde pode ser higienizado durante o banho. Estima-se que 2% dos adultos tenham alguma dificuldade de eliminar o cerume naturalmente e, por isso, podem sofrer incômodos pelo acúmulo de cerume no conduto auditivo externo, a chamada “rolha de cera” e, quando esse fenômeno ocorre, a limpeza deve ser realizada por profissional especializado, o otorrinolaringologista.

O uso das hastes de algodão (cotonete) e os comprometimentos auditivos:

A utilização das hastes com algodão para fazer limpeza do cerume, pode acabar empurrando o cerume para a parte mais interna do ouvido, acumulando-a justamente no conduto auditivo externo, próximo a membrana timpânica.

O contato frequente com a água, por introdução voluntária ou acidental de corpos estranhos no conduto auditivo externo e, também, através de traumatismos causados pelo uso de cotonete e outros utensílios com intuito de fazer a limpeza do conduto auditivo externo pode levar a afecções bacterianas que são as principais causas de otite externa aguda. O processo patológico se inicia quando a barreira de proteção é danificada, esta defesa é promovida pelo pH levemente ácido proporcionado pela presença do cerume. A lesão ocorre quando ocorre perda da integridade da pele, trauma direto, calor, umidade ou persistência de água no conduto auditivo externo. Nesse contexto de lesão, começa o processo inflamatório, seguido de edema, bem como proliferação bacteriana (Ghossaini, 2016). Em consequência do processo infamatório, os principais sintomas são intensa otalgia, acompanhada de otorreia de aspecto mucopurulento, prurido otológico e plenitude auricular (sensação de ouvido tapado). Também são relatados hipoacusia e edema dos tecidos adjacentes a orelha em casos de afecções extensas (Figueiredo, 2004).

Outra complicação que pode ocorrer durante o manuseio do cotonete no conduto auditivo externo é a perfuração traumática da membrana timpânica. Como consequência dessa perfuração, pode ocorrer perda auditiva, geralmente do tipo condutiva, acompanhada por sintomas como: plenitude auricular, zumbido, autofonia e infecções da orelha média. A perda auditiva percebida pelo paciente se torna mais intensa quanto maior for a perfuração, e é pior nas frequências mais baixas. A perfuração traumática da membrana timpânica pode fechar espontaneamente em 70% a 90% dos casos, mas a duração do processo até seu fechamento completo pode ser longa. A conduta cirúrgica, como timpanoplastia para fechamento da perfuração timpânica, é mais invasiva e, por isso, é uma opção reservada para os casos em que não há a resolução espontânea da perfuração.

Como higienizar os ouvidos?

A maneira correta de “limpar os ouvidos” é passando suavemente uma toalha limpa e macia após o banho, somente até onde o dedo alcança, sem forçar a entrada do canal auditivo. O cotonete pode ser utilizado para a limpeza do pavilhão auricular e não deve ser introduzido no conduto auditivo.

Bibliografia
1) Lou ZC, Hu YX, Tang YM. Effect of treatment at different time intervals for traumatic tympanic membrane perforation on the closure. Acta Otolaryngol. 2011;131:1032— 9.
2) Farhadi M, Mirzadeh H, Solouk A, Asghari A, Jalessi M, GhanbariH, et al. Collagen immobilized patch for repairing small tympanic membrane perforations: in vitro and in vivo assays. J Biomed Mater Res A. 2012;100:549—53.
3) Figueiredo, RR, Fabri, ML, Machado, WS. (2004). Otite externa difusa aguda: um estudo prospectivo no verão do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, 70(2), 226-231. https://doi.org/10.1590/S0034- 72992004000200013.
4) Ghossaini, S. (2016). BMJ Best Practice: Otite externa. Disponível em: http://formsus.datasus.gov.br/novoimgarq/28576/5049140_312361.pdf. Acesso em: 16 abril 2020.
5) Souza, LA, Andrade, MS, Tormem, LT & Souza, PA (2020). Popular practice applied the pain of hearing. Research, Society and Development, 9(7): 1-15, e418974206.

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