“Tenho perda auditiva nos dois ouvidos, preciso de dois aparelhos auditivos?”

A audição é um dos sentidos primordiais por permitir ao ser humano estabelecer a relação com o que o cerca.  A audição natural ocorre de forma binaural, na qual o sujeito escuta naturalmente pelas duas orelhas, este processo auxilia o indivíduo a melhor localizar a fonte sonora e compreender melhor a fala no ruído. Isto ocorre pela somação binaural, habilidade do processamento auditivo central de integrar as informações quando estas são captadas por ambas as orelhas (Referência 2). 

A perda auditiva está entre as doenças mais incapacitantes, fazendo com que o indivíduo seja privado da comunicação, causando impacto na qualidade de vida, podendo gerar isolamento e depressão. Para minimizar as consequências da perda auditiva na vida do paciente, sabe-se que a reabilitação do indivíduo é possível com o uso de próteses auditivas e do treinamento auditivo. (Referência 1 e 3)

A adaptação de próteses auditivas, além de trazer benefícios relacionados à audição e comunicação, pode resultar na melhora da qualidade de vida do indivíduo, assim como a saúde mental, a vitalidade e a vida social. O processo natural da audição é binaural, sendo assim, a protetização bilateral deve ser indicada para todos os pacientes com perda auditiva nos dois ouvidos, pois estes apresentam vantagens binaurais. 

Assim sendo, quais as vantagens de usar dois aparelhos auditivos?

  • Melhora da compreensão de fala em ambientes silenciosos e ruidosos. Usando dois aparelhos a audição seletiva é melhorada. Isso significa que o cérebro pode focar numa conversa que se quer ouvir, mesmo que existam outros sons competindo no mesmo ambiente;
  • Melhora da qualidade sonora. Pois proporciona uma situação mais próxima da natural o que possibilita um balanceamento do som nas duas orelhas, uma “equalização” dos sons;
  • Melhor identificação do som;
  • Melhora da habilidade de localização da fonte sonora;
  • Eliminação do efeito sombra da cabeça;
  •  Habilidade de separar os sons dos ruídos ambientais;
  • Menor esforço para ouvir e consequentemente menos cansaço ao final do dia com melhora direta na qualidade de vida;

Além dos benefícios citados acima, observa-se também que: 

  • Além da somação binaural, pois o som apresentado em ambas as orelhas é percebido com mais intensidade do que na audição monoaural, ou seja, com uma orelha;
  • Estimular os dois ouvidos, desta forma, se a perda auditiva piorar, o impacto será menor;
  • Manter as duas orelhas ativas resulta potencialmente em menos deterioração da perda auditiva. Pesquisas têm mostrado que com o uso de só um aparelho, a orelha não adaptada tende a perder as habilidades de percepção auditiva gradativamente.

É importante ressaltar que é o cérebro que entende os sons e que cada lado do nosso cérebro recebe informações auditivas cruzadas e não cruzadas, provenientes dos dois ouvidos. Chamamos isso de “interação binaural”. Dessa forma, o cérebro usa as informações recebidas nos dois ouvidos para determinar a direção do som e ter um aspecto “3D” do mesmo. O cérebro é como um músculo, precisa ser estimulado para não atrofiar. Se o cérebro não for estimulado pode gerar problemas cognitivos. O aparelho auditivo auxilia na estimulação do cérebro.

O grande desafio para os profissionais que trabalham com próteses auditivas são os pacientes que parecem ser candidatos ao uso de dois aparelhos, mas preferem usar apenas um. Duas orelhas oferecem a oportunidade de obter o máximo de informações.

Portanto, a menos que exista uma contraindicação, o uso de duas próteses auditivas é sempre a melhor alternativa. Usar dois aparelhos auditivos não é luxo, é necessidade. Assim como quando possuímos problemas visuais nos dois olhos, usamos óculos com lentes corretivas para ambos os olhos, quando a perda auditiva é nos dois ouvidos, o ideal é que a adaptação seja feita com dois aparelhos auditivos. Alguma vez já se perguntou por que é que nascemos com dois ouvidos se apenas um conseguiria cumprir a função da audição???

Referências:

  1. Megale RL, Iório MCM, Schochat E. Treinamento auditivo: avaliação do benefício em idosos usuários de prótese auditiva. Pró-Fono R. Atual. Cient. 2010 abr-jun;22(2):101-6.
  2. Azevedo MM, Vaucher AVA, Duarte MT, Biaggio EPV, Costa MJ. Interferência Binaural no Processo de Seleção e Adaptação de Próteses Auditivas: revisão sistemática. Revista CEFAC. 2013;15(6):1672-8.
  3. FERNANDES FS. Diversidade na perda auditiva: conhecer para incluir. Revista Científica Multidisciplinar UNIFLU, 2019; 4(2), 318-336.

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