Diferença entre: Treinamento auditivo acusticamente controlado e Treino auditivo em terapia fonoaudiológica.

A audição é uma das vias sensoriais que possibilita o ser humano a desenvolver e a manter a comunicação. Ouvir é a base para o desenvolvimento e aquisição da linguagem oral, assim permitindo a expressão das ideias e pensamentos. Na presença de algum obstáculo impedindo o desenvolvimento e o amadurecimento do sistema auditivo periférico e central, pensamos na intervenção terapêutica, fundamental para minimizar ou até mesmo sanar os prejuízos ocorridos.
A reabilitação auditiva é a intervenção fonoaudiológica que deve ser imediatamente providenciada nos casos de prejuízos auditivos diagnosticados. A reabilitação de perdas auditivas e de inabilidades auditivas advindas de um Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC) é realizada por fonoaudiólogos especialistas e é aplicada de diferentes maneiras. Neste artigo, vamos falar do treinamento auditivo voltado à reabilitação das habilidades auditivas alteradas detectadas em uma avaliação comportamental do processamento auditivo.
Segundo a American Speech Language Hearing Association (ASHA, 1996) o TPAC é definido como um déficit em um ou mais processos auditivos centrais, sendo caracterizado por uma ou mais alterações nas habilidades de localização e lateralização sonora, discriminação, reconhecimento auditivo e dos aspectos temporais da audição. Portanto, é composto por um grupo complexo de alterações frequentemente associadas a uma série de déficits auditivos que ocorrem mesmo com a audição periférica normal.
O Treinamento Auditivo (TA) é uma técnica de reabilitação auditiva utilizada na intervenção de indivíduos com TPAC. Musiek et al (2007) definem o TA como um conjunto de condições e/ou tarefas designadas para a ativação do sistema auditivo e dos sistemas associados, para que haja alterações benéficas no comportamento auditivo e no sistema nervoso auditivo central. Ele baseia-se na capacidade do cérebro em se modificar mediante à uma estimulação intensa, a chamada neuroplasticidade. Assim, a realização de exercícios auditivos desafiadores em uma certa frequência e por certo período, é capaz de modificar as estruturas cerebrais, ativando os circuitos neurais, aumentando a quantidade de neurônios envolvidos, o número de conexões sinápticas e ocasionando um aumento da sincronia neural das vias centrais. Isto fortalece as redes neurais responsáveis pelo processamento auditivo o que resulta em uma audição mais eficiente.
Mas, sabemos que existem duas maneiras bem dissipadas no meio fonoaudiológico de se realizar o treinamento auditivo de indivíduos que apresentam TPAC. O TA pode ser realizado em setting terapêutico sem a utilização de equipamentos específicos ou pode ser realizado em cabine acústica com uso do audiômetro.
O Treinamento Auditivo Acusticamente Controlado (TAAC) é aquele realizado com estímulos acústicos específicos e controlados quanto às suas características. Para isso, são utilizados audiômetros, softwares, fones calibrados e cabine acústica. Este possibilita também o controle da intensidade em cada orelha, podendo estimular mais a orelha pior, caso seja necessário, por exemplo. Esta técnica de estimulação do processamento auditivo, prioriza a intervenção sensorial/bottom-up, ou seja, prioriza melhorar a entrada da informação acústica. Quando existem reais inabilidades no processamento da informação auditiva, com este treinamento é possível obter-se rápidas repostas positivas, pois o sistema auditivo possui grande plasticidade e, portanto, a reorganização das vias auditivas acontece trazendo uma mudança comportamental satisfatória.
O treinamento auditivo realizado em terapia fonoaudiológica convencional é aquele que acontece em um contexto mais amplo e menos específico, pois não faz uso de controle acústico. É um treino das habilidades auditivas que ocorre, geralmente, junto às outras estratégias terapêuticas para trabalhar a linguagem. Esta técnica de intervenção também é altamente estimulante e efetiva, no entanto usa de aspectos, majoritariamente, top-down nas sessões terapêuticas. Isto quer dizer que as estratégias exigem processos superiores como cognição e linguagem para compreender a mensagem auditiva.
Um ponto importante a deixar claro, é que em ambas as técnicas se utiliza os mecanismos top-down e bottom-up, afinal o processamento auditivo depende tanto da via ascendente que transmite o sinal acústico, quanto de fatores cognitivos (Kraus e Hornickel, 2013), porém, em proporções diferentes em suas abordagens terapêuticas.
O TAAC e o treino auditivo em terapia fonoaudiológica são excelentes intervenções e que promovem benefícios expressivos aos indivíduos com TPAC, os vários estudos disponíveis na literatura brasileira e internacional podem comprovar isto, portanto, ambas são bem-vindas quando se trata de proporcionar a melhora nos processos de decodificação da informação auditiva.

REFERÊNCIAS
Alonso, Renata e Schochat, Eliane. A eficácia do treinamento auditivo formal em crianças com transtorno de processamento auditivo (central): avaliação comportamental e eletrofisiológica. Braz J Otorhinolaryngol.2009;75(5):726-32.
American Speech Language Hearing Association. (ASHA) Central auditory processing: current status of research and implications for clinical practice. Am J Audiology. 1996.
Kraus N, Hornickel J (2012) cABR: a biological probe of auditory processing. Auditory Processing Disorders: Assessment, Management and Treatment. 2nd edition: 159-183. Geffner D, Ross-Swain D, eds. Plural Publishing, San Diego, CA.
Musiek FE, Chermak GD, Weihing J. Auditory Training. In: Musiek FE, Chermak GD. Handbook of Central Auditory Processing Disorder, Plural Publishing, 2007.

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